Ó tédio, por que és tão cruel comigo?
Cá estou eu, sem internet, sem ninguém pra conversar e como se isso não bastasse, tu me entregas à pior companheira de todas: a televisão.
Bom eu não curto muito dramas mas creio que isso seja bem oportuno para expressar a situação apavorante que nós, brasileiros entediados, temos enfrentado. Hoje, trinta de dezembro de 2008, vou quebrar o silencio, afastar de mim esse cálice maldito imposto pela falta de opção e pela falta de grana que não nos deixa assinar TV a cabo ou sair com os amigos para uma lanchonete comer um pastel.
Nesta fatídica e já citada data, eu ingênuo que era, peguei com esperança, dedos trêmulos e olhar sedento o controle remoto e fiz uma constatação apavorante: nós não temos NENHUMA opção de entretenimento na TV. Em um rápido e torturante tour que você pode fazer pelos pouco mais de 13 canais da TV aberta você, invariavelmente, vai chegar às mesmas conclusões que cheguei:
1° - A qualquer hora do dia você vai ver, em pelo menos um canal, um pastor evangélico pregando a moral e os bons costumes.
2° - Você não vai demorar mais de três minutos para ouvir as seguintes frases: “Confira agora o resultado do último sorteio da loteria dos sonhos!”, “tóóótóóóleeequii show!”.
3° - A partir das 13 horas você vai assistir a ao menos uma cena de alguma novela da rede Globo de televisão, se não nas próprias novelas, mas nas chamadas ou no programa “Narcisista sim e daí?!” quero dizer “Vídeo Show”.
4° - Neste mesmo “Vídeo Show” você vai ver com toda certeza uma montagem “Zé Graça” com mais cenas de novelas e ainda tem o ápice: montagens com cenas de novelas diferentes (não sei como pude viver até hoje sem ver uma montagem com cenas de novelas diferentes!! Até parece!)
E tem mais por que, como diria Ferreira Aragão, “Do pescoço pra baixo é canela!”.
5° - Ô louco meu! Não é preciso assistir ao programa do Faustão para saber que seus convidados irão: “falar sobre seus personagens na novela x”. Sem falar que você não pode perder as “Incríveis Vídeo Cacetadas”.
6° - Não é preciso assistir as novelas para saber que o personagem do José Meyer vai pegar pelo menos 4 mulheres e que a Suzana Vieira vai fazer o papel de uma mulher viúva ou divorciada poderosa e sexualmente ativa.
7° - O cantor Roberto Carlos tem o mesmo empresário do Papai Noel que só permite que ele apareça uma vez por ano.
8° - Não há como não rir da cara dos atores da novela “Mutantes” e da sua bizarra combinação de influencias que vai de “Sítio do Pica Pau Amarelo” passa por “Heroes” topa em “Tropa de Elite” e já chegou em “O Rei Artur e os Cavaleiros da Tábula Redonda” eis aí uma das poucas coisas realmente engraçadas que você vai ver.
9° - A profissão mais fácil do mundo é ser escritor de novelas, você só precisa de alguns ingredientes básicos: um casal, um núcleo de personagens ricos e outro de personagens pobres, um núcleo que “nem fede nem cheira” ou seja, que não influi nem contribui pro enredo da novela, um núcleo de amiguinhos e palhaços e, esse ingrediente é essencial, algum invejoso ou invejosa que sempre fica sobrando e que vai infernizar a vida do casalzinho até o fim da novela. Depois que você tiver isso tudo basta seguir os tópicos a baixo:
- O mocinho conhece a mocinha ( se de núcleos diferentes temos o amor shakespeariano, se do mesmo núcleo temos o amor conformista), eles apaixonam-se e ficam juntos no começo;
- Os invejosos, geralmente “amigos” do mocinho ou da mocinha( com algumas variações), armam alguma intriga e o relacionamento dos sonhos que começou no tópico acima vai pro espaço;
- Corte a atenção para alguma cena do núcleo “nem fede nem cheira” que geralmente está mesclado entre os núcleos dos ricos e dos pobres. Desta forma você enrola um pouco conseguindo audiência pro próximo capítulo e mostra que sua novela não tem um pingo de conteúdo;
- Inconformados com o fim de um relacionamento de total confiança mutua, os mocinhos vão chorar nos ombros daqueles do núcleo dos amiguinhos e espairecer os pensamentos com as piadas do núcleo dos palhaços e, enquanto isso, os invejosos tentam conquistar o amor dos mocinhos;
- Os mocinhos voltam a ficar juntos e os invejosos arquitetam um novo plano para separá-los e esse plano como sempre vai dar certo, exceto no ultimo capítulo.
- Volte para o primeiro tópico;
Faça isso até ter uns 150 episódios, no ultimo capitulo o casalzinho fica junto, os amigos e palhaços ficam felizes e os invejosos se ferram.
- FIM
Concurso público?! Vestibular e depois faculdade?! Pra quê?! É muito mais fácil e rentável ser escritor de novelas.
Deixando um pouco à parte as bizarrices deste circo de horrores televisivo, devo dizer que uma coisa me entristece e me preocupa: o fato de eu ser uma das poucas pessoas que nota essas coisas (pelo menos eu acho). Assistir televisão é um habito normal em qualquer casa de família, mas o fato das pessoas não notarem este triste ciclo vicioso, esta falta de inovação, esta falta de conteúdo, esta repetição interminável de clichês e idéias que a princípio até eram boas, mas se desgastaram com o uso excessivo, me apavora.
Sou forçado a concluir, mas gostaria muito que alguém discordasse disso, que houve uma inversão de papéis. O brasileiro já não consegue distinguir o maligno padrão das transmissões de TV e só estranha algo quando o canal sai do ar ou quando falta energia; aliás, quando isso acontece, é quase como se faltasse algo essencial à vida como água ou ar. Pouco a pouco nos acostumamos a chegar do trabalho, ligar a TV e agüentar calados a essa lavagem cerebral. Não há espaço para questionamentos ou duvidas e sim para as grossas correntes que aprisionam a atividade da nossa massa cinzenta. Nos tornamos pacientes em coma, inertes e totalmente alheios a realidade sedentos pelo oxigênio que nos mantém vivos.
É triste admitir isso mas a programação nos programou.
O único consolo que tenho para isso é saber da existência de outro mundo, o mundo do qual todos nós viemos e para qual todos nós deveríamos voltar, o mundo calmo e silencioso onde somos os personagens principais das nossas vidas. Onde fica esse mundo? Chegar lá é mais fácil do que se imagina, pois este mundo maravilhoso sempre dá as caras quando apertamos aquele botão maior da TV, aquele perto da luz vermelha, próximo da palavra “POWER”.